uma galaxia por dia

quarta-feira

Abra o olho

Ele disse: "Abra o olho"
Caiu aquela gota de colírio
Eu vi o espelho
Ele disse: "Abra o olho"
Eu perguntei como é que andava o mundo
Ele disse: "Abra o olho"

O telefone tocou
Soando como um grilo de verdade
Eu ouvi o grilo
O grilo cantando

Tava eu no mato de novo
No mato sem cachorro
Eu pensei: "Tá direito?"
Que eu nunca tive cachorro ao meu lado

Ele disse: "Abra o olho"
Eu disse "aberto", aí vi tudo longe
Ele disse: "Perto"
Eu disse: "Está certo"
Ele disse: "Está tudinho errado"
Eu falei: "Tá direito"

Eu falei: "Tá direito"
Tudo numa gota de colírio
Ele disse: "É delírio
Navegar nas águas de um espelho"

"Meu nego, abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Ele disse: "Abra o olho"
Com aquela sua voz suave, amiga e franca
Eu falei "tá direito" de olho fechado e gritei:

"Viva Pelé do pé preto
Viva Zagallo da cabeça branca"

"Sou eu pondo colírio nos olhos depois de ter fumado um cigarro de maconha, em Manaus. O hotel ficava fora da cidade, no meio do mato. Fui ao espelho, vi meus olhos vermelhos, pus colírio e fiz a música. Um diálogo de mim pra mim. O 'ele' é 'o outro', o outro eu, o do espelho. Um pingue-pongue-bumerangue: você joga pra atingir o que está lá, a seta volta e lhe atinge. Pelé e Zagallo dão o sentido de contradição e complementaridade yin-yang; um é África, o outro, Europa."

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e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodomundolivro um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de rero e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhunzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo de assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
comêço em eco no soco de um comêço eco no no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buco do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onda a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cíntila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

segunda-feira

e antes que começo a noite
e com o recomeço da manhã
são 1001's
milumas noites
milumas letras
milumas páginas
1001's galáxias

quinta-feira

é a primeira vez que eu falo espanhol
em muito anos

segunda-feira

não sei porque, valzinho

Ergo em silencio, como um pirata perdido, minha negra bandeira, e me sento. Mexo e remexo e me perco e adormeço, nas ruínas da cidade submersa. Sonhando um mar que não conheço, como não conheço as ondas do meu coração.

Restaram, que nem cinzas, cicatrizes, que tentei cobrir, ainda, com pudor. Na memória, tantas vagas, que nem posso repetir ou explicar. Se me doeu, azar, não quero saber de nada.

domingo

reza calla y trabaja em um muro de granada trabaja y calla y reza y
calla y trabaja y reza em granada um muro da casa del chapiz ningún
holgazán ganará el cielo olhando para baixo um muro interno la educación
es obra de todos ave maria em granada mirad em su granada e aquele
dia a casa del chapiz deserta nenhum arabista para os arabescos
uma mulher cuidando de uma criança por trás de uma porta baixa y reza
y trabaja y calla não sabia de nada y trabaja não podia informar sobre
nada y reza e depois a plazuela san nicolás o branco do branco do
branco y calla no branco no branco no branco a cal um enxame de branco
o branco um enxame de cal pedras redondas do calçamento e o arco branco
contendo o branco a cal calla e o branco trabalha um muro de alvura
e adiante no longe lálonge o perfil vermelho do generelife e a alhambra
a plazuela branca contendo-se contendo-se como um grito de cal e o
generalife e a alhambra vermelhos entre ciprestes negros cariz mudejár
de granada e agora o cármene de priestley carros parando los guardias
civiles o embaixador inglês fazendo turismo entre as galas do caudilho
e do cármene de priestley sai priestley ou poderia ser para recebê-lo
aparato de viaturas escandalizando a cal calada o embaixador de sua
majestade britânica visita um patrício em granada crianças correndo
fugindo para os vãos das portas e o branco violado a medula do branco
ferida a fúria a alvúria do branco refluída sobre si mesma plazuela
san nicolas já não mais o que fora o que era há dois minutos já rompido
o sigilo do branco arisco árido da cálcio branco da cal que calla
y trabaja y estamos sentados sobre um volcán dissera o chofer no pátio
da cartuja sentados no pátio da alhambra bautuzada sob o sol da tarde
esperando que abrissem um vulcão coração batendo em granada e por isso
no muro reza y trabaja y calla san bernardo religión y pátria e de
novo o albaicín com sues cármenes y glorietas o albaicín despencando
de centenas de miradouros minúsculos sobre a vista da alhambra e do
generalife vermelho recortado de negro escarlate cambiando em ouro
o sol mouro os muros mauros de granada mas o silêncio na plazuela ou
plazeta san nicolás rompido para sempre um minuto para sempre nunca
mais a calma cal a calma cal calada do primeiro momento do primeiro
branco assomado e assomando nos lançando catapulta de alvura alba-
candidíssima mola de brancura nos jogando branquíssima elástico de
candura nos alvíssimo atirando contra o horizonte rejonegro patamar de
outro horizonte o semprencanecido esfumadonevado da sierra nevada agora
escrevo agora a visão é papel e tinta sobre o papel o branco é papel
yeserías atauriques y mocárabes de papel não devolvem senão a cutícula
do tempo a lúnula da unha do tempo e por isso escrevo e por isso
escravo rôo a unha do tempo até o sabugo até o refugo até o sugo e
não revogo a pátina de papel a pevide de papel a cáscara de papel a
cortiça de papel que envolve o coração carnado de granada onde um vulcão
sentados sobre explode e por isso calla y por eso trabaja y por eso

antes do big bang

antes havia o não vazio que não se acabava de ser átomo de ser atômico antes
o não espaço existia e se retorcia pra alcançar seu fim sua linha do infinito
antes mesmo do horizonte ser começo de vista da terra pro além da terra
que é o além do homem que é o além do sopro da sombra e seu assobio vil
assuado antes do a e do z antes da seta do ponto antes começo e do fim


depois existiu a dúvida e dela surgiram as galáxias e a partir dali ficou
confirmado que tudo depois do infinito era necessariamente repetição

quandio?